Levantamento de Carga Elétrica: os 5 insumos que precisam estar definidos antes de abrir o software
Você abre o software de projeto elétrico — Revit, QIElétrico, CADElétrico — e começa a jogar tomadas e circuitos na planta sem saber direito o que precisa. Resultado? Retrabalho de manhã, cliente reclamando de tarde, e você voltando ao passo 1.
A maioria dos recém-formados pula direto para a ferramenta. Mas o projeto elétrico executivo começa muito antes do primeiro clique. Precisa de insumos. Precisa de critérios. Precisa de decisões técnicas tomadas antes de começar a modelar.
Neste artigo você vai mapear exatamente quais são os 5 elementos que precisam estar no papel (ou na sua cabeça, estruturados) antes de tocar em qualquer software de elétrica. Sem isso, o projeto que você entregar vai voltar coberto de anotações do cliente ou da construtora.
1. Planta Baixa Finalizada — Arquitetura Definida
Parece óbvio, mas é o erro número 1: começar a projeto elétrico com a arquitetura ainda mexendo.
Você define os circuitos, faz o lançamento de quadro, especifica proteções — e aí a arquitetura muda de parede, remove um cômodo, inverte a porta. Tudo que você fez desanda.
O que você precisa ter definido:
- Plantas baixas de todos os pavimentos, com cotas, dimensões e metragens finalizadas.
- Localização de portas, janelas e pé-direito (influencia a altura de tomadas e interruptores).
- Áreas molhadas definidas (cozinha, banheiros, áreas de serviço) — porque o critério de tomadas muda nesses espaços.
- Zoneamento final (se tem varanda, lavabo, suíte, sala de estar integrada ou separada).
Sem a planta baixa nessa forma, você não consegue fazer um levantamento de carga confiável. As tomadas não vão no lugar certo, os circuitos vão estar desequilibrados, e você acaba refazendo tudo.
Coordene com o projetista de arquitetura. Exija a planta finalizada — não é para "já ir começando", é para começar de verdade.
2. Relação Completa de Equipamentos — O Que Vai Funcionar
Agora você precisa saber: quais equipamentos vão estar na casa?
Não é só tomada de 20A na sala. É geladeira, ar-condicionado, chuveiro elétrico, bomba de aquecimento, máquina de lavar roupas, forno embutido — cada um com sua potência e critério.
Essa relação vem do cliente (ou do programa do projeto). Sem ela, você tira do ar. E quando o cliente muda — "Ah, vou colocar um chuveiro eletrônico de 5500W lá" — o quadro inteiro desanda de novo.
O que fazer:
- Prepare uma planilha com equipamentos por ambiente: potência (W), tensão (127V ou 220V), tipo de circuito (exclusivo ou compartilhado).
- Inclua eletrodomésticos de entrada (geladeira, máquina de lavar, forno) — porque esses vão em circuitos exclusivos.
- Pergunte ao cliente — antes de começar — se há intenção de aquecedor solar com boiler elétrico, bomba de piscina, sauna, ou qualquer coisa fora do standard residencial.
- Separe a demanda por cômodo. Isso define quantos circuitos você vai precisar em cada ambiente.
Com essa relação em mãos, você consegue fazer a conta da potência total instalada e dimensionar o quadro certo.
3. Padrão da Concessionária — Limites e Exigências
Cada concessionária tem seu próprio padrão. Em São Paulo é a EDP, no Rio é a Light, em outros estados pode ser Cemig, Copel, Equatorial. Cada uma tem suas exigências e seus limites.
Você não pode chegar com um projeto dimensionado para uma demanda de 30kVA se a concessionária só oferece entrada até 22kVA na região. Ou oferecer um padrão de ramal que não é aceito na concessionária local.
O que você precisa consultar:
- Demanda máxima permitida para o imóvel (kVA).
- Tipo de ramal oferecido: monofásico, bifásico ou trifásico.
- Tensão padrão da região (algumas ainda usam 110V + 220V, outras já são 220V único ou 380V/220V trifásico).
- Exigências de aterramento, tipo de medidor e proteção de entrada.
- Se há subsídio para energia solar fotovoltaica (muda o padrão de conexão).
Esses dados você consegue no site da concessionária, nos manuais técnicos de padrão de atendimento, ou ligando na concessionária direto — melhor ainda.
Isso define a entrada do projeto inteiro. Errar aqui é arruinar tudo depois.
4. Critério de Proteção e Divisão de Circuitos — As Regras
Agora você precisa saber: qual é a lógica para dividir os circuitos?
Existem critérios técnicos, critérios de norma (NBR 5410) e critérios de bom senso. Um tomada de sala não pode estar no mesmo circuito que o chuveiro. Uma cozinha inteira não cabe em um circuito só. Cada ambiente tem um limite de tomadas por circuito.
Os critérios principais:
- Equipamentos de potência alta (chuveiro, forno, ar-condicionado, máquina de lavar, aquecedor): circuito exclusivo, proteção dimensionada só pra esse equipamento.
- Tomadas de cozinha, copa e áreas de serviço: máximo 8 pontos por circuito (pode ser menos, depende da potência prevista).
- Tomadas de sala, dormitório e ambientes secos: máximo 10 a 12 pontos por circuito.
- Iluminação: pode ser compartilhada ou exclusiva (recomenda-se ao menos um circuito exclusivo de iluminação geral).
- Áreas molhadas (banheiro, cozinha): proteção adicional com DR (disjuntor diferencial residual).
Essa divisão define quantos "slots" você vai precisar no quadro, qual disjuntor você vai especificar e como os circuitos vão se distribuir pelas fases.
Aqui você também define se vai usar proteção individual (DR por circuito) ou um DR geral + disjuntores individuais. Isso muda o tamanho do quadro e o custo do projeto.
5. Definição de Fases — Distribuição de Carga
Esse é o passo que a maioria ignora e depois reclama de desbalanceamento.
Se sua entrada é bifásica ou trifásica, você precisa distribuir os circuitos entre as fases de forma equilibrada. Não pode colocar toda a potência na fase A e deixar a fase B vazia. A concessionária vai reclamar, o transformador envelhe mais rápido e a tensão fica instável.
Como fazer:
- Some a potência de cada circuito.
- Divida pelo número de fases (2 ou 3).
- Distribua os circuitos de forma que cada fase fique o mais próximo possível daquela potência.
Exemplo: demanda total de 10kVA, entrada bifásica. Cada fase fica com ~5kVA. Você coloca os circuitos maiores em fases diferentes, os menores você aproveita para "equilibrar".
Essa divisão você define antes de abrir o software. No software você só executa o que já está decidido. Se você deixar para "resolver depois", o projeto fica bagunçado e difícil de documentar.
O Fluxo Certo Antes de Abrir o Software
Antes de clicar em "novo projeto" em qualquer ferramenta, você passou por isso:
- ✓ Planta baixa finalizada (dimensões, áreas molhadas, zoneamento).
- ✓ Relação de equipamentos + planilha de potências.
- ✓ Padrão da concessionária confirmado (demanda máxima, tensão, tipo de ramal).
- ✓ Critério de proteção e divisão de circuitos definido.
- ✓ Distribuição de fases calculada e equilibrada.
Com isso, você abre o software e executa. Não mais fica inventando critérios no meio do caminho.
Esse levantamento de carga é o que profissionais chamam de "base do projeto". É 30% do tempo de trabalho, 100% de chance de acertar. Sem ele, você vai redesenhar três vezes, ficar com raiva da ferramenta (que não é culpada) e entregar tarde.
A Comunidade Novos Projetistas (CNP) ensina esse fluxo completo, desde o levantamento até a prancha executiva. No curso de Elétrico, você vê na prática como fazer esse levantamento em um projeto real, não é só teoria. A plataforma oferece acesso a templates prontos e o grupo de +400 engenheiros está lá pra tirar dúvida quando você trava.
Resumo: Os 5 Insumos Que Precisam Estar Prontos
| Insumo | O que é | Por que importa |
|---|---|---|
| Planta baixa finalizada | Arquitetura com cotas, áreas, dimensões definidas | Sem ela, tomadas e circuitos ficam no lugar errado |
| Relação de equipamentos | Lista com potência de cada aparelho por ambiente | Define a demanda total e o tamanho do quadro |
| Padrão da concessionária | Demanda máxima, tensão, tipo de ramal permitido | Limita o projeto inteiro — não pode ultrapassar |
| Critério de proteção | Regra de quantos pontos por circuito, proteção por ambiente | Define quantos disjuntores você vai precisar |
| Definição de fases | Distribuição de carga entre fases equilibrada | Evita desbalanceamento e problema na concessionária |
Esses 5 insumos são pré-requisitos. Sem eles, você não começa.
O Que Acontece Se Você Pular Alguns Desses Passos
Se você abrir o software sem o levantamento pronto:
- Arquitetura muda? Refaz todos os circuitos.
- Cliente decide por outro equipamento? O quadro talvez não caiba mais.
- Concessionária diz que não aceita aquela demanda? Volta pro quadro, diminui carga.
- Fases desbalanceadas? Redesenha a distribuição inteira.
Cada um desses retrabalhos é tempo perdido, frustração, e risco de erro. Pior: cliente vê que você não sabia o que estava fazendo.
O profissional de verdade faz o levantamento primeiro. O software vem depois.
Próximo Passo: Do Levantamento para a Prancha
Depois que você tem o levantamento pronto, vem a parte de modelar, detalhar e gerar a prancha executiva. Mas isso é outra história — e é o que a maioria das pessoas tenta fazer pulando a etapa que você acabou de ler.
Se você quer aprender o fluxo completo — do levantamento até a prancha executiva — e ter acesso a modelos prontos e suporte de quem já fez centenas de projetos, confira a Comunidade Novos Projetistas. Lá você tem 9 horas de aula sobre projeto elétrico, templates Revit validados, e o grupo de engenheiros ativos pra tirar dúvida quando você trava.
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Perguntas frequentes
Ainda tem dúvida?
Por que preciso fazer levantamento de carga antes de abrir o software?
Porque o levantamento define todos os critérios do projeto — quantos circuitos, qual tamanho do quadro, como distribuir as fases. Se você pula essa etapa, acaba inventando critérios no meio do caminho e refazendo tudo quando a arquitetura muda ou o cliente muda de ideia. O levantamento é a base — o software só executa o que já está decidido.
Como faço para conhecer o padrão da minha concessionária?
Consulte o site oficial da concessionária (EDP, Light, Cemig, Copel, etc.) ou procure pelo 'Manual Técnico de Padrão de Atendimento'. Lá você encontra a demanda máxima, tipo de ramal, tensão padrão e exigências de proteção. Se tiver dúvida, ligue direto na concessionária — eles respondem por email ou telefone.
Quantos pontos de tomada cabem em um circuito?
Depende do ambiente. Em cozinha, copa e áreas de serviço: máximo 8 tomadas por circuito. Em sala, dormitório e ambientes secos: máximo 10-12 tomadas. Equipamentos de potência alta (chuveiro, forno, ar-condicionado) precisam de circuito exclusivo. A NBR 5410 especifica essas regras — ela é sua referência.
O que é desbalanceamento de fases e por que importa?
Desbalanceamento é quando você distribui os circuitos de forma desigual entre as fases (ex.: colocar toda potência na fase A e deixar a B vazia). Isso causa queda de tensão, reduz a vida útil do transformador e a concessionária pode negar a ligação. O correto é distribuir a carga de forma que cada fase fique com potência aproximada.
Qual é a diferença entre DR individual e DR geral?
DR geral protege toda a entrada — é mais barato mas menos flexível. DR individual (por circuito ou por grupo de circuitos) oferece proteção segmentada — mais caro, mas quando um circuito dispara, os outros continuam funcionando. Áreas molhadas obrigatoriamente precisam de DR; o resto você escolhe conforme o custo do projeto.
Preciso consultar a concessionária antes de começar o projeto?
Sim, pelo menos para confirmar a demanda máxima permitida e o tipo de entrada oferecida. Isso define se seu projeto está viável ou se precisa ser redesenhado. Alguns escritórios fazem uma pré-análise; outros consultam formalmente só depois que o projeto está pronto. Depende do cliente e da fase, mas antes de abrir o software, você já precisa saber os limites.
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